sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Curso de Ciências Sociais da UFRN pede Socorro


Senhora Perestroika
Uma coisa vem surpreendendo e sendo comentada pela maioria dos alunos de graduação e pós-graduação de Ciências Sociais da UFRN: como o curso está ruim. O sentimento de desencanto e insatisfação é uma constante em quase todas as conversas de corredor e no fórum do sigaa. Esse sentimento não é dirigido a este ou aquele aspecto do curso, ele é geral: desencanto com as aulas, com a falta de eventos, de debates, de iniciativas de pesquisa e projetos que envolvam alunos, insatisfação com a postura da maioria dos alunos em sala de aula e dos professores.
Chegamos ao ponto de, com uma triste ironia, criar no SIGAA um tópico sobre como podemos piorar ainda mais o nosso curso.
As reclamações e frustrações são tantas que me pergunto onde estão os professores? Se vocês, professores, sentem e percebem o que está passando com o curso e com os seus discentes. Fico cada vez mais triste quando mais um colega vem a mim falando que quer abandonar o curso. E nem é tanto por causa da falta de perspectiva de empregos. Não é o futuro que está nos frustrando, é o presente. É por causa dele que muitos estão desistindo do curso.
Infelizmente, até onde sei, esse mal-estar também é compartilhado pelos alunos da pós. Recentemente soube, segundo me disseram, que mais uma vez a pós de CS recebeu uma nota baixa na avaliação da Capes. Os discentes do mestrado também reclamam do nível das aulas e das discussões e das disciplinas oferecidas.
Não sei de quem é a culpa. Mas todos temos a responsabilidade de fazer algo a fim de mudar esse quadro. Porém, as coordenações deveriam, com a devida coragem e sem nenhum tipo de mentalidade de caça às bruxas, fomentar e organizar o debate. Infelizmente, há muita omissão. Quantas reclamações contra professores que enrolam em sala de aula e no outro semestre lá estão novamente fazendo o mesmo em outra disciplina?
É preciso iniciativa, reflexão e diálogo para atacar os muitos problemas e questionamentos que o curso de Ciências Sociais e a Pós-graduação vivem. Uma das indagações que atravessa a cabeça do aluno da graduação ao do doutorado, diz respeito às ementas das disciplinas.
Nos encontros de estudantes ou nos eventos de CS, percebemos que há um vazio de autores e escolas de pensamento que em outras universidades são estudados enquanto aqui pouco ou nem ouvimos falar. Quais são os critérios que definem nossa grade curricular? Há um equilíbrio com uma grade nacional ou fica à cargo das preferências intelectuais dos professores? Porque os autores que trabalhamos destoam tanto daqueles que são discutidos nos grandes centros nacionais e internacionais? Porque os clássicos, tão importantes para a formação, são dados de uma forma tão dispersa e fragmentada em nossos currículos?
É verdade que um bom curso de graduação dever fomentar a pluralidade de ideias e teorias, mas também é verdade que o melhor curso sempre apresenta uma reserva forte nos estudos dos clássicos. Nesse sentido, as viagens para os encontros nacionais demonstram que, ou estamos trilhando um caminho absolutamente revolucionário, ou que nos encontramos na contramão daquilo que, de fato, mereceria nossa atenção. Uma boa medida seria comparar nossas ementas com as que são praticadas pelo país afora, para assim estabelecer parâmetros.
É fundamental também fortalecer direitos e responsabilidades de alunos e professores. Não numa perspectiva de dizer que a culpa pela “condição de atraso” seja dos docentes ou dos discentes, mas de fortalecer os laços em prol de um determinado projeto. Como alun@, não percebo um projeto de formação claro nem na teoria e muito menos na prática. É por isso que quando somos perguntados sobre o que um cientista social faz não sabemos responder. Porque, no final da contas, não aprendemos responder nem para nós mesmos. Então, se o curso não consegue incutir uma identidade clara sobre o que é um cientista social e o que ele faz, é porque há algo de profundamente equivocado no modo como as coisas estão organizadas e sendo transmitidas.
Porém, há de se destacar uma relação desequilibrada no que concerne à organização das estruturas pedagógicas e disciplinares que regem hoje a graduação e a pós-graduação. É impossível tratar, neste quesito, alunos e professores em pé de igualdade. São, sobretudo, os professores, por sua experiência e saber, que devem orientar, conduzir e propor as bases da formação.
Neste sentido, professores precisam se empenhar mais com o devido intuito de fortalecer as aulas, trabalhar conteúdos com mais rigor e debater as teorias e técnicas de pesquisa em sala de aula. É preciso mais harmonia em nosso currículo sem dispensar a pluralidade de ideias e teorias. Não é possível mais aceitar a substituição do aprendizado científico pela simples prática política em sala de aula, ou que simplesmente o tempo de discussão não seja melhor aproveitado na forma de acumulação de saber. A velha lógica do “esforço mínimo”, que é atribuída pelos professores aos alunos, não pode ser corroborada por nossos próprios mestres.
Os alunos, em contrapartida, não podem reclamar a cada vez que algum professor tenta subsidiar suas aulas com textos que ultrapassam míseras dez páginas. Os discentes, além disso, não podem adotar a postura de escolher entre os “textos que são lidos” e aqueles “que não são lidos”. Temos que ler e nos preparar pra debater.
É imprescindível que estas e outras questões sejam atacadas, mas sem explicações fáceis do tipo: “os alunos são preguiçosos”, ou os “professores não prestam”. O momento não é para confrontos entre posições. Os dois lados podem e devem contribuir.

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